Suscripción institucional·Capítulo de libro·2022·Portugués

(Prefácio) Acadêmicos indígenas em Roraima e a construção da interculturalidade indígena na Universidade

Stephen Grant Baines

Crossref

Resumen

O livro de João Francisco Kleba Lisboa constitui uma contribuição importante para o tema da presença de indígenas em universidades, no estado de Roraima e em todo o Brasil. Agradeço seu convite para escrever este prefácio, pois orientar a tese de João Francisco, sobre um tema que me interessa muito, e em um estado onde realizo pesquisas junto a povos indígenas desde o início dos anos 1980, foi um enorme prazer, em que aprendi muito. Em 2002, fui convidado pela professora Maria Auxiliadora de Souza Melo, um dos fundadores do antigo Núcleo Insikiran de Formação Superior Indígena, na Universidade Federal de Roraima (UFRR), a participar das oficinas de planejamento do curso e desde então venho acompanhando as atividades em visitas anuais de pesquisa a Roraima. Apesar do ingresso de indígenas nas universidades no Brasil ser um fenômeno relativamente recente, sua entrada no ensino superior está se acelerando de uma maneira não prevista. O autor mostra que a luta entre as gerações mais novas a superar o racismo, os preconceitos e a discriminação racial, social e epistêmica a que os indígenas foram submetidos, para mudar seu lugar histórico no Brasil, ganhou um ímpeto novo em anos recentes. Dessa forma, o ingresso de indígenas nas universidades partiu, principalmente, de demandas do movimento político indígena por acesso à educação escolar e ao ensino superior, visto como um caminho para sua contribuição coletivamente com as lutas pelos direitos indígenas, com o fortalecimento de suas comunidades e sistemas de conhecimento e com a melhoria de suas condições de vida e convivência na sociedade nacional em termos mais justos, após séculos de invasão e espoliação de seus territórios e violação dos seus direitos. As demandas dos indígenas partem de questionamentos das imensas desigualdades e assimetrias que eles vivem na sociedade nacional e também dos modos ocidentais de ensino e aprendizagem, para protagonizar a construção de uma educação escolar diferenciada que seguisse os seus propósitos e interesses e valorizasse as culturas e línguas indígenas. Nas comunidades indígenas que visitou e entre a maior parte das pessoas com quem ele conversou, a pesquisa realizada por João Francisco foi muito bem aceita. Os seus objetivos tendiam a ser vistos pelos indígenas como uma pesquisa útil para eles, considerando o grande número de jovens indígenas que seguem cursos universitários atualmente e a significância da educação superior para as gerações novas. O autor objetivou ver como se dá o choque de diferentes modelos e expectativas, confrontando as teorias acadêmicas e nativas. João Francisco examina as falas dos acadêmicos indígenas de Roraima a partir de suas trajetórias de vida, e constata as múltiplas influências culturais que preenchem suas rotinas, entre as comunidades indígenas e a cidade, entre os saberes culturais indígenas e os saberes acadêmicos. O livro, que nasceu da sua tese de doutorado em Antropologia na UnB, defendida em 2017, é fruto de pesquisa de campo realizada em Roraima que se deu em cinco idas ao estado entre novembro de 2014 e setembro de 2016, perfazendo um total superior a nove meses, dentre os quais ele acompanhou um semestre letivo inteiro (interrompido por uma longa greve nas universidades federais) entre 2015 e 2016. O autor aproveitou da sua quinta ida a Roraima, enquanto escrevia a tese, para colher as últimas informações e mostrar o trabalho em andamento para os interlocutores da sua pesquisa, passo importante na finalização de um trabalho produzido colaborativamente. Os objetivos da tese incluem um estudo sobre a construção da interculturalidade na universidade a partir das perspectivas dos indígenas sobre o que esta palavra significa para eles, cujas experiências nas universidades representam trajetórias para um futuro novo em que aprendem as ferramentas da sociedade nacional na sua luta para superar as injustiças a que foram submetidos desde o início do processo colonial. Após a Introdução, em que o autor apresenta como chegou a realizar pesquisa em Roraima sobre indígenas na universidade, e delineia a pesquisa, entra em uma discussão sobre mito e geografia, história e ciência e a história de colonização da região, fundamental para compreender o presente. Aborda a história do movimento indígena em Roraima, que ganhou ímpeto a partir dos anos 1970 e 1980, e o surgimento de uma luta indígena para educação escolar indígena. Após esses capítulos introdutórios, aborda-se a presença indígena na Universidade Federal de Roraima, a criação do Núcleo Insikiran, posteriormente transformado em Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena, e os dilemas enfrentados na construção de uma formação diferenciada, a vida de estudante indígena, e a questão da interculturalidade dos indígenas, com a citação de muitos exemplos num trabalho etnográfico exemplar dirigido para os assuntos examinados. Revela que em Boa Vista, os acadêmicos indígenas constituem uma faceta inovadora e vibrante do mundo. Como um bom pesquisador, João Francisco toma cuidado para não tomar partido nas acirradas disputas cotidianas sobre a educação escolar indígena, deixando os seus interlocutores falar por si mesmos, em assuntos que frequentemente não têm respostas únicas e incorporam todas as contradições das relações interétnicas presentes no âmbito da universidade como em toda a sociedade. O autor, rompendo com os métodos da etnografia tradicional, consegue mostrar, sem cair em dualidades simplistas, a coexistência de saberes e influências variados que constituem o olhar e a experiência dessas pessoas que vivem num campo interétnico em rápida transformação. A capa do livro se destaca pela esplêndida obra de arte intitulada, “Dignidade e Conhecimento”, do artista, escritor e intelectual Macuxi, Jaider Esbell, que tragicamente faleceu em novembro de 2021 aos 41 anos de idade. Pintor, ativista e produtor cultural, autor de quadros de um estilo muito particular que mesclam arte contemporânea e tradicional, autor de três livros publicados, tornou-se um dos principais interlocutores na pesquisa de João Francisco e influenciou no seu estilo de escrever. Merece citar da tese de João Francisco, um comentário de Jaider sobre sua própria obra que se encontra na Universidade Federal de Roraima (UFRR): “O Painel Dignidade e Conhecimento é um pouco disso: trazer conhecimento milenar, ancestral, espiritual. E eu acredito que os povos indígenas, para ter a dignidade que tanto querem, passam por essa questão de esse conhecimento ser reconhecido dignamente. Isso leva para questões de estudar outros modelos de certificar esses conhecimentos, que a própria academia não compreende. Hoje o meu trabalho está em várias universidades” (p. 203-204). João Francisco demonstra que a interculturalidade, palavra-chave no seu argumento referente à educação escolar indígena e o acesso ao ensino superior, tem mais de um sentido. Na sociedade nacional esta palavra constitui a forma encontrada para dar solução à diversidade cultural, num Estado nacional concebido como se fosse homogêneo, e o surgimento, e reconhecimento pelo Estado, de acadêmicos indígenas cuja presença está transformando tanto as universidades quanto a disciplina de Antropologia. O autor mostra que a interculturalidade, para além de um princípio a guiar políticas educacionais inclusivas, é vivida pelos povos indígenas de Roraima em primeira pessoa (do singular ou do plural), a partir de suas próprias histórias pessoais e coletivas. A incorporação da escola e o acesso à universidade, conquistas ainda incompletas, são fruto de suas próprias lutas e reuniões, novas etapas nesse longo caminho que se cruza com o caminho dos não indígenas no continente americano, e que requer bastante cuidado para não desandar em labirinto. Para quem se interessa em educação escolar indígena, este livro é de grande valia.

Cómo citar

Stephen Grant Baines (2022). (Prefácio) Acadêmicos indígenas em Roraima e a construção da interculturalidade indígena na Universidade. https://doi.org/10.53268/bkf22010398